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ENTREVISTA: Ministério revela impreparação para gerir esta crise

“Não tendo havido formação para todos, não tendo chegado os equipamentos e não tendo sido criadas outras condições indispensáveis para o ensino a distância, iremos viver mais um tempo em que tudo dependerá, principalmente, da boa-vontade de professores, escolas, alunos e famílias, isto é, de mais do mesmo”

O Secretário-geral da FENPROF em entrevista ao Diário de Notícias insiste na análise que a Federação vem fazendo há muito tempo, desde a primeira vaga da pandemia. Uma insistência que torna ainda mais clara a vontade política da FENPROF para ser parte da solução, ao mesmo tempo que revela um ministério/governo que teima em fazer parte do problema, quando teve todas as oportunidades para emendar os erros cometidos. Mário Nogueira, responde, ainda, a duas perguntas que colocámos sobre a situação socioprofissional dos professores.

O que correu mal no ano passado?

Quase tudo. Quando o ensino, o ano passado, passou de presencial para regime remoto nada estava preparado nesse sentido. Tudo se precipitou num fim de semana, com as escolas, os professores, os alunos e as famílias a saberem no dia 13 de março, sexta-feira, que a 16, segunda-feira, todos estariam em casa em regime de ensino a distância. Não se cuidou de saber se havia computadores disponíveis, se havia acesso à Internet, se havia literacia digital para entrar no mundo das plataformas, se havia disponibilidade financeira para superar o que o governo não resolveu. Equipamentos não forneceu, mas o Ministério da Educação afogou os professores com centenas e centenas de páginas de literatura, boa parte de difícil apreensão para um corpo docente envelhecido que nunca teve acesso a qualquer tipo de formação sobre digitalização do ensino.  Todos fizeram um grande esforço, mas o resultado não correspondeu ao mesmo. As aprendizagens foram muito prejudicadas, as desigualdades dispararam, o abandono escolar aumentou, a vida de quase todos desorganizou-se, a privacidade foi muitas vezes posta em causa, o horário de trabalho passou a esmagar o familiar e o de descanso. Foi negativo e a experiência veio negar que, afinal, o ensino a distância não era o tal admirável mundo novo que alguns governantes apregoavam e algumas empresas do digital nos tentavam convencer.

É claro que ter deixado os alunos fora do radar durante três meses teria sido ainda pior, mas o ensino remoto foi um mal menor, mas pouco menor. O único aspeto positivo no meio de tudo o que aconteceu foi , mais uma vez, o reconhecimento das famílias sobre o importante papel dos professores.

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"Não houve um trabalho devidamente preparado para este ano,
nem sequer as escolas receberam os equipamentos que,
como afirmou o Primeiro-Ministro em abril, estariam nas escolas no início do ano letivo"

Houve alguma preparação para este ano letivo?

Não houve um trabalho devidamente preparado para este ano, nem sequer as escolas receberam os equipamentos que, como afirmou o Primeiro-Ministro em abril, estariam nas escolas no início do ano letivo: computadores e Internet para todos, tanto alunos como professores. Não estiveram, como também não chegaram ao longo do primeiro período, no final do primeiro período, no início do segundo período... e agora veremos se chegarão, como se anunciou, até final deste segundo período. Os computadores que chegaram às escolas não dão resposta a 10% das necessidades e o próprio Primeiro-Ministro já reconheceu que falhou, embora o Ministro da Educação pareça mais relutante em meter a mão na consciência, o que já é habitual. Também ao nível da formação, o que houve foi iniciativa própria ou de algumas escolas, mas, de uma forma geral, os problemas com que estas se confrontaram no ano letivo passado mantêm-se e a decisão do governo de interromper toda e qualquer atividade letiva nesta primeira fase de encerramento das escolas é o reconhecimento implícito disso mesmo.

Nos casos das crianças sinalizadas como foi a experiência?

O ano passado as dificuldades foram imensas e os alunos sinalizados, fosse por que razão fosse, acabaram por ser os mais penalizados. O apoio a distância deixou alguns de fora, respostas, como terapias, que tinham de ser presenciais, foram suspensas e na maior dos casos o envio de atividades a desenvolver com os pais não teve a resposta adequada ou foi insuficiente. Esse parece ser um problema que terá alguma mitigação, uma vez que se mantêm as respostas da Intervenção Precoce, que é desenvolvida em domicílios, os alunos com necessidades educativas especiais terão apoios presenciais e, já em outro domínio, os serviços de CPCJ irão manter-se em funcionamento. É evidente que esta organização pode atenuar problemas, mas não os resolve, pois estas crianças e estes jovens não terão junto de si os seus professores de turma e os seus colegas, mas nisso não há volta a dar...

O que se pode fazer para melhorar?

De imediato, não muito pois o que tinha de ser feito já deveria ter sido. Não tendo havido formação para todos, não tendo chegado os equipamentos e não tendo sido criadas outras condições indispensáveis para o ensino a distância, iremos viver mais um tempo em que tudo dependerá, principalmente, da boa-vontade de professores, escolas, alunos e famílias, isto é, de mais do mesmo. E boa-vontade não tem faltado e vai, decerto, acontecer que a experiência que se viveu o ano passado ajudará a melhorar alguns procedimentos, mas sendo muito o que cada um dará, será, apesar de tudo, pouco para o que seria necessário.

Com um ano letivo em que os défices acumularão aos herdados do anterior (que era suposto serem agora superados...), o governo não pode deixar de equacionar muito para além das condições para o ensino a distância, mas, igualmente, perante o que está a acontecer, como adequar os currículos a toda esta situação, como avaliar os alunos neste contexto, que regras para acesso ao ensino superior... Nada está a ser igual ao que deveria ser e não se pode fingir que não se percebe isso.

"Às pessoas exige-se confinamento, devendo esse ser respeitado,
mas os direitos e as condições de trabalho não estão confinados.
Não se exigem prémios nem aplausos, apenas respeito."

Neste contexto, colocam-se problemas, mais uma vez, no plano socioprofissional dos docentes…

Sim, a esse nível nada avançou. As condições de trabalho não melhoraram, pelo contrário, estão mais difíceis, designadamente em relação aos horários que parece que deixaram de ter limites, em relação às carreiras nem sequer o que a lei impõe, como a publicação das vagas para progressão aos 5.º e 7.º escalões, é cumprido, o regime de concursos não foi revisto nas suas maiores injustiças, a precariedade é uma nódoa que continua a alastrar, o envelhecimento avança sem medidas que o contenham e revertam. A Covid tem sido justificação para que pouco ou nada tivesse sido feito e mesmo em relação a medidas de apoio aos professores em teletrabalho, temos assistido à inércia total por parte dos governantes.

E perante esta situação, o que terá de fazer o movimento sindical?

Não obstante as dificuldades colocadas por este tempo estranho, ao movimento sindical cabe não baixar os braços. É fácil, num contexto como este, aceitar tudo, haver resignação, ser mais difícil reivindicar com medo, até, que pareça mal… Aos sindicatos compete contrariar essas dificuldades. Obviamente que a situação que se vive não pode ser ignorada, mas ela, só por si, não justifica tudo. Às pessoas exige-se confinamento, devendo esse ser respeitado, mas os direitos e as condições de trabalho não estão confinados. Não se exigem prémios nem aplausos, apenas respeito.

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