Nº 3 · Abr 2019

DesilusaoA precariedade como fator de desilusão com a profissão

Ana Isabel Silva, dirigente do SPRC, professora contratada 

Agrup. de Escolas José Estêvão, Aveiro

“Se eu soubesse o que sei hoje, nunca teria vindo para professor(a)!”, “Se eu fosse mais novo(a), mudava de profissão!”, “Estou farto(a) disto, mas o que é que eu vou fazer se não sei fazer mais nada?”. Estes são apenas alguns exemplos de desabafos que, diariamente, se ouve da boca de muitos professores, inclusivamente contratados. 

Se as viagens no tempo fossem já uma realidade, é provável que a maioria dos professores contratados voltassem atrás e tomassem um rumo diferente. E este facto é de lamentar, não só porque a desmotivação profissional grassa na classe docente, e neste setor em particular, numa profissão essencial para o futuro de qualquer país, mas também porque são pessoas altamente qualificadas para o exercício da docência, com Licenciaturas, Mestrados, Especializações, que o seu País está a descartar.

Há cerca de vinte anos, entrar no Quadro era questão de três ou quatro anos. De repente, de um ano para o outro, este prazo estendeu-se, até ser agora sine die. Mas a vida de um contratado não esbarra apenas na não entrada nos Quadros. Neste momento, são muitos os fatores que obstaculizam o exercício da profissão: as centenas de quilómetros a percorrer para encontrar um horário, muitas vezes incompleto, e consequente perturbação na vida familiar; a extensão dos intervalos de horários a concurso a que é necessário concorrer (8 a 14, ou 15 a 21), sendo que não é o mesmo ter um horário de quinze ou de dezoito horas; a não declaração de trinta dias por mês à Segurança Social, no caso dos horários incompletos, entre outros. Há que reconhecer e compreender que os professores contratados têm ainda mais razões do que outros setores da classe docente para estarem cada vez mais desiludidos com esta profissão.

Tudo isto significa que os professores contratados não desempenham convenientemente as suas funções? Claramente que não. Em muitas escolas se ouve ainda que os professores contratados dão vida ao corpo docente e à Escola. Isto significa que, não obstante as barreiras que se erguem para nos impedirem de acedermos à profissão, os professores contratados continuam, contra tudo e até contra aquilo que podia ser expectável para muitos, corajosa e arduamente a trilhar este tortuoso caminho. No entanto, o mesmo não se pode dizer quanto ao seu envolvimento nas ações dos outros professores. A desilusão com a profissão docente levou muitos contratados a pensarem que ninguém está com eles, que ninguém se preocupa, que ninguém sabe, nem quer saber...

Não podemos levar a mal esta postura, pois os professores contratados são, de facto, o grupo mais precário do corpo docente. Quando o mundo inteiro está contra nós, é muito fácil pensar que não há quem esteja connosco! É preciso, no entanto, não esmorecer; continuar a incluir as preocupações dos professores contratados nas lutas sindicais; não esquecer as especificidades deste grupo em todas as atividades realizadas; continuar a referir este nome – contratados –, por vezes tão divisor. Os professores contratados, a meu ver, estarão disponíveis para integrar a luta, desde que todas as lutas passem a ser de todos. Há que envolver os professores contratados em todas as ações dos outros professores, mas envolver todos os outros professores nas ações dos contratados... 

É difícil? Com certeza. É impossível? Não me parece! Nada é impossível quando se luta e não se desiste. Não desistiremos, pois não?!...

Ana Isabel Silva, professora contratada no Agrup. de Escolas José Estêvão, Aveiro

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