Desemprego

Maio é um mês bonito, talvez pela afirmação mais consistente da primavera ou então pela sua propensão para mês milagreiro.

Foi em maio que a senhora, escolhendo o alto de uma azinheira, se dignou aparecer a três ingénuas criancinhas, vítimas de exploração de trabalho infantil no pastoreio de um rebanho nos arrabaldes de Fátima, para lhes segredar aos ouvidos as três condições de salvação do mundo.

Foi em maio, curiosamente dois dias antes das celebrações, que o primeiro-ministro Passos, não sei se iluminado pela dita senhora ou a mando dela, descobriu milagrosamente o remédio para todos os males do mundo: o desemprego!

O desemprego é uma verdadeira fonte de oportunidades e de libertação da alma. O emprego, como toda a gente sabe, não é para toda a vida… o desemprego pode ser. Não sendo um estigma, dá-nos a possibilidade de mudar de vida várias vezes ao dia. De manhã sou desempregado em casa, à tarde no café da terra ou na soleira da porta, à noite durmo, se conseguir.

A liberdade de escolha é um direito fundamental que só o desemprego garante. O patrão despede-te e tu escolhes, porque tens o dito (direito): vais para a rua ou…vais para a rua. Depois de estares na rua, isto é no desemprego, então é que podes escolher à vontade, diria mesmo que à fartazana: devolvo a casa ao banco ou o banco tira-ma, passo fome ou não como, fico a dever ou não pago, aproprio-me de bens alheios ou roubo…a escolha não é fácil. Entretanto sempre posso ir vivendo debaixo da arcada de um passeio, em qualquer avenida de cidade ou debaixo da ponte de um qualquer riacho de aldeia.

Eu já escolhi depois de muito matutar e embalado por esta campanha do pingo doce no primeiro de maio. Vou montar uma enorme superfície, assim como um continente. Está decidido; mas de matutar em matutar, acho que tenho um problema ou vários. Não tenho capital para investir, que a indemnização não deu para nada, mas isso é de somenos; agora o meu vizinho já pensou no mesmo e isso é que é preocupante. Se o vizinho do meu vizinho pensa o mesmo e os outros vizinhos também, não sei se a superfície do país dá para todas as grandes superfícies que todos os vizinhos querem montar e depois não há superfícies para produzir o que supostamente queremos vender nas nossas grandes superfícies…e depois não tenho clientes, cada um compra na sua. Isto da livre escolha já me parece uma grande treta, mas há sempre alternativas tais como montar uma fábrica de entortar bananas e formar uma parceria com o governo regional da Madeira ou vender lotes no areal da praia de Mira durante a maré baixa.

O desemprego é mesmo um manancial de boas oportunidades.

Senhor primeiro-ministro Coelho, desempregue-se e escolha livremente ir pentear macacos para Marte porque a Lua é muito próxima.

13 de maio de 2012

Zé Neves

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