Desporto Escolar, espécie em vias de extinção

Já o ano passado escrevi sobre o assunto, alimentando a infundada esperança de não ter necessidade de voltar a fazê-lo. Infelizmente enganei-me.

Numa altura de, porventura exagerado, enaltecimento patriótico em torno da seleção que em nome do nosso país vai participar no Europeu de Futebol e com a qual se gastam rios de dinheiro, é publicada em Diário da República, no âmbito da organização do próximo ano letivo, mais uma machada no já de si incipiente desporto escolar.

É com alguma amargura que vou assistindo a este desfile de vaidades que, por inexistência de verdadeiros motivos, o vão tentando transformar em movimento de unidade nacional, como se tal fosse possível. O treinador Manuel José já comparou depreciativamente, com alguma polémica, tudo isto a um circo e a um episódio do “Grande Irmão”. Eu direi que a hipocrisia e a pouca vergonha não têm limites.

Há pouco tempo, foi atribuído o “Colar de Honra ao Mérito Desportivo” a um senhor empresário, bem conhecido do mercado de transferência de jogadores, cujo mérito não contesto mas outros colares, que não aquele, haveria para lho reconhecerem. Este funciona como uma afronta, para não dizer insulto, a quem dia a dia trabalha na formação desportiva, por carolice ou com remunerações meramente simbólicas, em condições que às vezes não lembram ao diabo.

Num país em que a taxa de obesidade e sobrepeso é a segunda maior da Europa, em que a Assembleia da República aprova recomendações no sentido da generalização e intensificação da atividade física em idade escolar, vem este governo mais uma vez, sem qualquer justificação, pedagógica e científica plausível, que não seja a do poupar dinheiro à custa dos salários dos professores, cortar no tempo de prática e consequentemente no número de praticantes. A minha indignação não se baseia só em motivos corporativistas de defesa do emprego, o que seria legítimo, mas fundamentalmente na drástica diminuição na atividade e na negação ao acesso de milhares de jovens a uma prática organizada e orientada.

Por cada professor de Educação Física que sai é um núcleo de Desporto Escolar que acaba. No Agrupamento de Escolas da Mealhada, poderão estar em risco três ou quatro núcleos para além da diminuição efetiva do tempo de prática. No ano passado cortaram uma hora, este ano outra;  é caso para se dizer: de corte em corte até à extinção.

A curiosidade é que para quem não esteja por dentro dos assuntos e leia os preâmbulos dos despachos deverá ficar perfeitamente convencido da bondade e grande preocupação dos governantes em relação aos alunos, professores e escola em geral. São autênticos tratados de demagogia de fazer corar qualquer mentiroso compulsivo.

Afirmou o primeiro ministro que, há um ano, estávamos à beira do abismo. Demos pacientemente um passo em frente.

8 de Junho 2012
José Neves

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