O NECESSÁRIO COMBATE AO POPULISMO E À EXTREMA DIREITA

Miguel Viegas, Professor na Universidade de Aveiro, deputado europeu do PCP e integra o grupo GUE/NGL 

 

O crescimento do populismo e da extrema-direita é já uma realidade instalada nos vários continentes com destaque para a Europa e para a União Europeia. Partidos como a Aurora Dourada na Grécia, a Liga Norte em Itália, a Frente Nacional em França, o Partido da Liberdade na Áustria, o UKIP no Reino Unido, o Partido da Liberdade na Holanda, o Partido Popular Dinamarquês, a coligação no poder na Hungria, a Alternativa para a Alemanha (AfD) ou mais recentemente o VOX na vizinha Espanha são exemplos de uma longa lista de partidos políticos que procuram, através de um discurso populista com declinações fascizantes, mobilizar o descontentamento latente em largas camaradas da população dos diferentes estados na União Europeia. 

Caracterização:

Sem querer simplificar uma realidade que é sempre complexa e multifacetada é útil tentar identificar algumas tendências que caracterizam estes partidos e movimentos que deixaram há muito de constituir um fenómeno isolado. A primeira nota de registo passa pela própria forma ambígua com que estas formações se apresentam perante o eleitorado, tentando em muitos casos disfarçar a sua identidade fascista usando a roupagem populista. A designação de cada uma destas formações políticas é por isso propositadamente ambígua, tendo como objetivo claro evitar uma reação alérgica do eleitorado que ainda tem presente os horrores do fascismo. A dita extrema-direita, chamada de populista, alimenta-se, tal como no passado, da crise social e económica. Cresce à mesma razão da taxa de desemprego, instrumentalizando assim o descontentamento popular que resulta da natureza neoliberal das políticas de austeridade impostas pelo processo de integração capitalista da União Europeia. Procuram assim representar as vítimas da globalização capitalista, recorrendo, no entanto, a um discurso enganador que acusa falsos inimigos e desvia os trabalhadores das questões fundamentais pelas quais é necessário lutar. Curiosamente (ou talvez não...), formações como o Podemos ou o Movimento Cinco Estrelas, atuais vedetas cintilantes do chamado populismo de esquerda, convergem nesta ideia tão cara ao grande capital do fim da luta de classes. Assim, a luta de classe, considerada caduca e vazia de sentido, deve ser substituída pela luta do povo contra as elites, esta casta que é responsável pelo crescimento das desigualdades sociais e económicas. 

Desfazer o equívoco, denunciar o seu programa e afirmar a alternativa

Não devemos menosprezar os perigos destes movimentos. Acompanhando a sua atividade, o seu programa ou a sua intervenção política permite-nos identificar, para além do seu ódio visceral aos sindicatos e aos partidos de esquerda, todo um ideário onde se conjuga a promoção ativa da divisão entre trabalhadores e a manutenção no essencial do atual sistema e em particular do domínio de classe do grande capital onde vai buscar grande parte do seu apoio político e material. De facto, descontando algumas bandeiras que procuram ir ao encontro de reivindicações populares, a generalidade dos programas destes partidos não questiona o sistema antes promove a sua continuidade e até o seu reforço.

Que fazer para denunciar este embuste? O discurso da extrema-direita, respondendo a anseios legítimos das classes trabalhadores, acaba por desembocar num programa político que erra completamente no alvo e propõe falsas soluções que transformam a proposta política num verdadeiro embuste. Neste sentido é de grande relevância conhecermos a proposta destes partidos por forma a denunciar esta falácia e apontar a verdadeira natureza de classe destes partidos que emergem da crise e não visam mais do que conter o descontentamento e desviar os trabalhadores da luta que importa travar em prol da sua verdadeira emancipação. As propostas concretas que se baseia numa diminuição dos impostos para as empresas, ou na implementação de um protecionismo “inteligente”, na descapitalização da segurança social ou nos ataques aos serviços públicos visando a sua privatização falam por si. 

Contra o avanço da extrema direita travestido de populismo, devemos denunciar as suas propostas, mas também denunciar as políticas da União Europeia seja ao nível dos refugiados seja ao nível da austeridade. Foram estas políticas da União Europeia, aplicadas com zelo em Portugal e nos restantes estados membros da UE, que criaram o caldo social onde nasceu e se reforça a extrema direita. Emerge assim como fundamental a necessidade de um outro projeto de cooperação para a Europa centrado na solidariedade entre os povos, na valorização do trabalho, dos serviços públicos e de uma distribuição mais justa do rendimento.   

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