A ASCENSÃO DA EXTREMA DIREITA

Duarte Correa, Professor de História e Analista Internacional. Membro do Secretariado e do Conselho Federal da Federação de Ensino da Confederação Intersindical Galega (CIG-ENSINO)

 

A actual ascensão da extrema direita conta com elementos que se assemelham com o aparecimento dos fascismos europeus no primeiro terço do século passado, mas não devemos proceder a uma análise mecanicista que equipare a situação actual com a de há cem anos. Sendo certo que também hoje uma grave crise económica do capitalismo leva o sistema a fomentar estas opções, não podemos evitar duas características próprias e actuais: na maioria dos casos, a ascensão da extrema direita é via eleitoral e não emerge como resposta a um movimento operário forte, organizado e firme ideologicamente.

Olhando agora para a Europa, temos os governos de Hungria, Polónia e Ucrânia dirigidos por uma extrema direita com presença noutros sete governos e em 17 parlamentos estatais; e desde há um ano, o norte-americano Steve Bannon, que foi chefe de campanha de Donald Trump, tenta coordenar estas organizações por meio de uma entidade chamada O Movimento.

Seria muito simples designer todos esses movimentos de fascistas ou neofascistas; alguns sim o são, nomeadamente no caso da Ucrânia, onde o golpe de estado de 2014 instaurou um regime  ditatorial com importantes elementos neofascistas e neonazis, regime apoiado pelos EEUU e pela União Europeia. Mas de outros não sabemos as derivações que terão no futuro, e hoje podemos englobá-los no conceito amplo de extrema direita.

Ao contrário de há cem anos, hoje, a ascensão da extrema direita não é uma resposta do capital a um auge geral das organizações políticas e sindicais e das ideias de esquerda; o capital aproveita as renúncias e o desarme ideológico produzido, fundamentalmente, desde os anos noventa, para desencadear uma ofensiva, de eliminação de direitos e na recuperação da percentagem de mais-valia que teve de ceder à classe trabalhadora e ao conjunto das classes populares depois da IIª Guerra Mundial, devido à força das organizações políticas e sindicais de esquerda e ao medo da influência soviética e do ideal socialista.

O capital e as fundações e laboratórios de ideias que preparam, actualizam e divulgam o seu discurso levam décadas a inocular-nos a sua ideologia, com a tese do fim da história e das suas derivações, com o fomento do individualismo e da figura do vencedor, com a vulgarização do conceito de classe média e a manipulação da história, fazendo desaparecer dela os esforços colectivos que permitiram os avanços sociais que hoje usufruímos. Isto avança de forma exponencial no momento em que os meios de comunicação e as redes sociais adquirem um papel central nas nossas vidas, transformados em arma estratégica com capacidade para moldar opiniões, criando a denominada pós-verdade, de que são exemplos paradigmáticos a invenção de governos que apoiam o terrorismo global e a ideia de estarmos ameaçados pelo diferente, personificando-o na imigração, isto é o mesmo que dizer, em pessoas expulsas das suas moradas por causas económicas e de guerras de rapina.

A crise sistémica que explodiu em 2008 tinha o campo fertilizado para dar o grande salto na ofensiva de destruição de direitos empregando as denominadas políticas de austeridade, políticas que em muitos estados não tiveram pela frente uma reacção firme de organizações políticas e sindicais de esquerda, quer pela sua debilidade, quer por terem assumido o papel de "gerentes do sistema” e o “discurso do mal menor”. Perante os cortes, sectores importantes da classe trabalhadora e dos segmentos que se consideram classe média, encontram, nos falsos discursos anti-sistema e anti-establishment da extrema direita, a resposta que procuram para dar uma pancada na denominada classe política responsável pelos seus sofrimentos. A evolução da extrema direita em França é exemplo paradigmático deste processo.

Face ao desconcerto existente, devemos, em primeiro lugar, estar conscientes da situação para  a encarararmos com as medidas necessárias, medidas que devem basear-se no combate ideológico, na denúncia das actuações da extrema-direita e no fortalecimento das nossas ferramentas, que são, fundamentalmente, as organizações sindicais, políticas e sociais que lutam por construir uma sociedade alternativa.

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