A Igualdade de Género na Escola

Ana Catarina Oliveira, Membro da Direcção Distrital de Coimbra do SPRC

 

Imaginemos que damos, em sala de aula e como parte de um exercício, a tarefa de procurar no dicionário e registar os significados das palavras “mulher” e “homem”. O mais provável é encontrarmos os seguintes registos:

“mulher nf 1 pessoa adulta do sexo feminino 2 pop esposa; companheira”

“homem nm 1 mamífero primata, bípede, que se distingue dos outros animais pela capacidade de produção de linguagem articulada e desenvolvimento intelectual 2 ser humano 3 pessoa adulta do sexo masculino 4 pop marido; companheiro 5 [com maiúscula] espécie humana; humanidade  de homem para homem com frontalidade e franqueza; sem subterfúgios; homem de bem indivíduo honesto; homem de letras indivíduo que se dedica a uma atividade intelectual; homem de palavra indivíduo que cumpre aquilo que promete; homem que não mente; homem feito indivíduo que atingiu o seu pleno desenvolvimento; adulto”

E eis que os alunos são expostos a um conceito de homem que o define como “mamífero primata, bípede, que se distingue dos outros animais pela capacidade de produção de linguagem articulada e desenvolvimento intelectual” e como “ser humano” - já sem contar com todas as restantes considerações que advém da cultura e expressões escolhidas, todas abonatórias – e a mulher é apenas definida como “pessoa adulta do sexo feminino”. E pronto. Nada mais define uma mulher, nem sequer o facto de também ser um mamífero primata, bípede, que se distingue dos outros animais pela capacidade de produção de linguagem articulada e desenvolvimento intelectual. 

Parece inócuo, mas não é. Não num país onde, em média, uma mulher é assassinada por um companheiro, ou ex-companheiro, a cada 15 dias. Não num mundo onde a primeira coisa que se faz perante uma violação, ou outro abuso de carácter sexual, é questionar a conduta da mulher (e até de uma adolescente) como se houvesse alguma circunstância que pudesse transformar o seu corpo num objecto à disposição, ilibando o “pobre macho” que perde a sua “capacidade de produção de linguagem articulada e desenvolvimento intelectual”.  Não num mundo onde as mulheres, apesar de estatisticamente serem mais qualificadas, perdem oportunidades de emprego e promoção porque são ou poderão querer vir a ser mães. Num mundo assim, este registo, com tão ampla e abonatória definição de “homem” em contraste com tão simplificada definição de “mulher”, apenas se consolida, de modo perigosamente inconsciente, a noção de que a mulher tem menos valor que o homem.

Mas voltemos à sala de aula e ao registo que os alunos acabaram de fazer. Damo-nos conta e, talvez, até fiquemos um pouco chocados. Que fazer? Tomar uma atitude, porque a atitude é tudo. É o tal tão poderoso currículo oculto de que tanto ouvimos falar durante a nossa formação como professores e educadores. Se ainda não o era, a aula pode, e deve, transformar-se numa aula de educação para a cidadania, ou outro nome que lhe queiram dar. É uma oportunidade de ouro para provocar o confronto com os milhares de estereótipos e preconceitos que nos ensinam, a homens e mulheres, desde pequenos, os papéis de género que perpetuam o domínio de um sexo sobre o outro, domínio esse que tantas e tão graves situações provoca – violência doméstica, casamento infantil, agressões sexuais e físicas, desemprego, dependência financeira, pobreza... 

Todos sabemos que a Escola é um importante motor de mudança social e cultural. Mas a escola é um edifício, a Escola tem como actor fundamental o Professor: o adulto, homem ou mulher, “mamífero primata, bípede, que se distingue dos outros animais pela capacidade de produção de linguagem articulada e desenvolvimento intelectual”, que tem como encargo formar e ajudar a educar cidadãos plenos, futuros homens e mulheres capazes de olhar para si e para o outro como pessoas, seres humanos, iguais em direitos efectivos, e não apenas em letra de lei.

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