Maria Isabel Lemos
Professora, dirigente do SPRC

Aquando do entendimento da plataforma sindical dos professores com o Ministério da Educação, apareceram vozes de não entendimento, leia-se discordância, com a parca importância do conteúdo do protocolo entretanto aceite pelas partes. Tal opinião só pode ter vindo de uma informação incompleta ou de leituras apressadas. Nunca é demais realçar que, para além de vitórias tão importantes como a definição geral da carga horária da componente de trabalho individual, da aceitação de que todo o trabalho de professores contratados possa ser avaliado e, assim ser tido como tempo de serviço, do adiamento dos actos conducentes à institucionalização (de novo…) de um director, se conseguiu que a Ministra da Educação entendesse a importância da negociação e deixasse a sua atitude arrogante para passar ao diálogo; entendamo-nos: tal nunca tinha acontecido; entendamo-nos: a Ministra e a sua equipa conversaram mais nessas duas semanas do que nos dois anos que as antecederam.

Um dos aspectos do entendimento foi a suspensão durante este ano lectivo, agora prestes a terminar, do processo de avaliação dos professores e a redução ao mais simples do processo avaliativo dos professores contratados que passou a resumir-se, na prática, ao preenchimento dos itens possíveis da ficha de auto-avaliação; convenhamos que, para quem achava (como foi frequentemente repetido por esta equipa ministerial) que o relatório crítico de avaliação, ligado ao anterior estatuto não era nada, foi um grande e inesperado entendimento.

Então, ainda simples na acção para uns, para outros já muito complicado, aí está o monstro a começar a rugir. Se não tivesse havido o dito entendimento, ouvir-se-iam neste momento os urros por esse país fora; país, não: por esta parte continental do país. As ilhas têm sortilégios que afinal não estão só no nosso imaginário…

E agora começa o meu desentendimento.

Ainda não foram aprovados nem divulgados os instrumentos que vão servir de base ao processo avaliativo e já aí estão fichas, listas de verificação, descritores, âmbitos de incidência, guiões de observação, enfim uma complexa panóplia, no sentido literal do termo, pois de armas se trata.

Diligentemente os professores começaram a construir a sua perdição, não sei se por uma perversa atracção pelo abismo ou uma inconfessável e medieva tendência de auto-flagelação. Só nos falta mesmo que, qualquer dia seja esta equipa ministerial a vir manifestar o seu não entendimento por tal sadomasoquismo.

Vamos assim assistir a um director que tenha cerca de duzentos docentes para avaliar (o que é perfeitamente certo, dados os agrupamentos de escolas), a analisar processos avaliativos de mais de vinte páginas cada um, a fazer duzentas entrevistas. Na minha ingenuidade, ainda pensei:”Bem, não são todos ao mesmo tempo...: uns anos uns, outros anos outros…”  Mas não! Para o Ministério poder controlar as “cotas”, são todos no mesmo período de tempo. Então não fará mais nada. Não entendo como vai orientar o conjunto de questões que hoje tanto tempo e energias retiram aos Conselhos Executivos.

Quanto aos docentes, vão gastar tanto tempo e criatividade a planificar, organizar, preparar, avaliar que não lhes vai sobrar disponibilidade para comer, dormir, amar e, claro… para exercer a sua função de professores. Talvez se tenham que encerrar as escolas por uns dias. À porta, ficará um letreiro: “Não há aulas porque os professores estão a avaliar-se uns aos outros”.  Não entendo, não entendo.

Vou esperar que todo este processo avaliativo, se auto-destrua, se esfume como aquelas mensagens iniciais dos episódios da “Missão Impossível” da minha adolescência, que também não eram de fácil entendimento.

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