A iniciativa tem o timbre da FENPROF e dos seus sindicatos. O seu (esforçado) protagonista principal é o dirigente do SPRC, António Morais, professor da EBI de Eixo, em Aveiro. No seu esforço fica simbolizado muito do que é o dia-a-dia dos professores portugueses, um dia-a-dia irresponsavelmente desprezado e agravado pelo exercício governativo da actual maioria.

Na passada segunda-feira teve passagem por Coimbra e partida da EB 2,3 Silva Gaio com direcção a Leiria, seguindo-se, ainda esta semana, Santarém, Coruche e Montemor-o-Novo. Por estes dias de Agosto, é um longo e difícil trilho que António Morais percorre de bicicleta, ligando Melgaço a Vila Real de Santo António, ligando muitas das escolas em que já trabalhou a outras onde ficará assinalada a sua passagem; com sacrifício e esforço físico intenso, por certo, mas também com a esperança de poder contribuir para alertar a opinião pública para a importância e necessidade de a sociedade apoiar os seus professores.

Sendo verdade que o insuficiente investimento, ou mesmo o desinvestimento, em Educação têm marcado as opções de sucessivos governos, alastrando preocupantes gangrenas numa área de tal importância, nunca como com o governo Sócrates/PS as coisas tinham ido tão longe… Por isto mesmo, na procura de minimizar a indignação por tão desastrosas opções, o Governo seguiu, desde cedo, um discurso e uma prática de hostilização deliberada dos professores. Procurou isolá-los e torná-los mal vistos. Uma táctica sórdida para que os protestos suscitados não tivessem eco na sociedade. Ficará célebre a estúpida cegueira política de uma ministra da Educação (!) que a levou a vangloriar-se de ter perdido os professores (que importa, não é!...) mas ter ganho a opinião pública… (Ministra… da Educação, sublinhamos!...)

Neste contexto, a iniciativa “No Trilho da Esperança” pretende, de norte a sul do país, chamar a atenção da opinião pública para o isolamento em que os docentes exercem a sua profissão, sem a necessária consideração por parte dos governos. Pretende chamar a atenção para as condições adversas que enfrentam no seu dia-a-dia, desde as de trabalho às de integração social em diferentes comunidades. Quer chamar a atenção para as distâncias percorridas, para o afastamento da família, dos amigos e para a exigência de sucessivas (re)adaptações de vida exigidas durante a sua carreira profissional. Quer sinalizar os efeitos de um custo de vida acrescido com substanciais despesas de transporte, quantas vezes com segundas habitações e outras que continuam, também elas, a merecer apenas vista grossa por parte do poder político.

A questão não está em vitimizar os professores que, como se vê, não são os únicos a sofrer com os efeitos de erradas opções políticas governativas. A questão está em chamar a atenção para dados da sua vida, incluindo do seu exercício profissional, que são frequentemente esquecidos e que, por parte do Governo, são cirurgicamente omitidos e desvalorizados. Também a vida de professor caracteriza-se, cada vez mais e por efeito das políticas seguidas, por uma enorme instabilidade, tanto de emprego como profissional. É o oposto a todas as recomendações nacionais e internacionais sobre a profissão docente. E estas são verdades que não aparecem no discurso da ministra e do governo que ela integra.

Daqui, neste estio difícil para tal esforço, um abraço ao colega António Morais que continua a pedalar, em luta, até ao sul do país. E por intermédio dele, um abraço a todos os professores portugueses. Esperando que a corajosa iniciativa ajude a aclarar algumas verdades sobre o que é ser professor, hoje, em Portugal, sabemos que a esperança dos professores numa profissão devidamente valorizada continuará a construir-se, contra as erradas opções políticas do actual Governo, no trilho da luta que em conjunto vamos prosseguir.

João Louceiro
Professor e dirigente do SPRC

Está em... Home Espaço Opinião No trilho da esperança - João Louceiro