Há anos que são uma espécie de redacção da guidinha, apenas pontuados por vírgulas, nos quais não se consegue respirar e os acontecimentos se sucedem sem ponto final, sem nunca se chegar; e assim foi dois mil e oito, uma travessia do deserto para a quase totalidade dos professores, um ano civil que cruzou dois supliciantes anos lectivos, memoráveis pela inédita incomunicação com a senhora ministra da educação, pelo absurdo desregramento das horas e da tipologia do serviço docente, por violações sucessivas da própria legislação, pelo anátema público que se tentou adensar, em determinados discursos oficiais, ressuscitando ódios primários que muito lembram estratégias milenares de dividir para reinar; este foi o ano da invenção, não do amor, mas de grelhas avaliativas insofríveis; o ano do sacrifício dos titulares, essa casta de eleitos que tanto jeito deu à economia, não por ganharem mais, mas porque simbolizaram o empobrecimento de todos os outros, e que se viram promovidos a professores especialíssimos, a motores do absurdo, a únicos capazes de fazer hoje o que todos faziam ontem, numa ilusão própria de ópera bufa, não porque se tivesse provado que uns eram menos habilitados, menos capazes, mais incompetentes, mas porque se inventou o incrível concurso que descredibilizou essa coisa tão irrisória que é dar aulas, leccionar, erigindo como actividade nobre o exercício de cargos administrativos, e resumindo a sete anos os percursos profissionais; dois mil e oito, o ano que saiu caro a todos os docentes, os que subiram e os que desceram, porque tão gratuita e ridícula foi a promoção, como o foi a despromoção, e porque todos foram eleitos como dois gumes da mesma faca - a que cortou na despesa, cega aos custos que isso acarretará no futuro, se a desmotivação falar mais alto do que o brio profissional que vai prevalecendo; dois mil e oito foi o ano em que a senhora ministra começou a entalar entre a espada e a parede a casta que criou, sem direito a objecção de consciência, porque os titulares da senhora ministra não devem dar provas de consciência, mas de absoluta obediência, cega, surda, muda, acéfala; os titulares e os professores da senhora ministra só devem existir para cumprir aquilo que antes de ser já era, i.e., um modelo de avaliação que sempre foi inegociável, depois de um estatuto que foi inegociado, ambos a transformarem-se em leis, contra tudo e contra todos, numa política de quero, posso e mando; dois mil e oito foi o ano das reformas, não da educação, mas dos professores, porque só não vai quem não pode, tamanha é a indignidade em que a senhora ministra da educação colocou os professores quando os tratou como se fossem a galinha dos ovos de ouro, sem perceber que nem os ovos eram de ouro, nem era conveniente matar a galinha; este foi o ano que nos ensinou que o que falta aos professores é sentido de humor para perceber que apontar uma pistola a um professor é uma brincadeira de mau gosto, sim, senhora ministra e seus acólitos, hoje sei que quando um aluno me apontar uma arma, devo perguntar-lhe se podemos também jogar ao berlinde, jogo que aprecio sobremaneira; hoje, todos nos sentimos mais tranquilos e se amanhã, em vez de nos oferecerem flores, nos apontarem uma pistola, vamos todos brincar; se for mesmo a sério, não resistimos, entregamos o Magalhães, que não vale a pena perder a vida por ele, nem que seja a brincar, e em última análise, consola-nos a ideia de que a senhora ministra da educação achou muito tocante aquela criancinha que lhe dizia que depois de receber o fantástico computador estava ansiosamente a contar os anos para se poder filiar no ps, consola-nos que, finalmente, algo toque a senhora ministra e que a mesma consiga despertar tais vocações, pois todos fomos aprendendo, ao longo dos anos, que não é fácil tocar a senhora ministra; contudo, o que a tocará mesmo a sério, mas assim a bater bem fundo, será encontrar a criancinha impoluta, a única suficientemente ingénua para dizer quando eu for grande quero ser professor; no dia em que a senhora ministra a encontrar, vai às lágrimas, não de comoção, mas de raiva, por ainda não ter conseguido acabar completamente com a raça dos professores; felizmente, os anos, tal como os textos e os ministros, acabam sempre por ter um ponto final.

Isabel Dias - Professora, dirigente do SPRC

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