Lázaro, um sem abrigo de Lisboa. Só com uma perna, isto é, sem uma perna, deitadinho no passeio, com os cobertores dados pela liga lá do sítio, aconchegadinho até às orelhas. Foi surpreendido com uma voz roufenha e arrastada que lhe ordenou: “Levanta-te e anda!”. Obediente Lázaro levantou-se devagarinho e andou. A “pé coxinho”…!

Assim andamos nós adormecidos pelos cânticos melodiosos das governamentais sereias que, quando vislumbram algum sinalzito de pseudo-recuperação económica, lançam louvores à sua magistral habilidade política, mas, quando se fala de desemprego, de precariedade no trabalho, de baixos salários, a culpa é da crise internacional.     

O embuste é claro, não sei mesmo o que se passa pela cabecinha das pessoas face aos anúncios dos lucros fabulosos da banca, da E.D.P., da Mota- Engil, dos grupos ligados aos combustíveis, isto é, de todos os grandes grupos económicos e face aos constantes choradinhos sobre a malfadada crise que, coitados, não os deixa dormir sossegados.

Por outro lado, surgem vendavais de suspeitas, sobre eminentes políticos, poderosos empresários, designação na moda para patrões, e outros tubarões deste rectângulo ibérico, de grossa corrupção que têm levado juízes a autorizar escutas telefónicas a diversas personalidades o que só por si é indiciador de “moira na costa”. Os casos já são muitos: Apitos de várias cores, Freeport, Cova da Beira, Face Oculta, B.P.N., B.P.P., outros que não me ocorrem e ainda casos de outro tipo, igualmente graves, como o da “Casa Pia”. O que torna todo este estado de coisas mais preocupante é a centralização das atenções mais sobre a legitimidade das escutas telefónicas e menos sobre os actos de corrupção, como se de bagatelas se tratassem. Há casos absolutamente claros que mergulham nas águas da impunidade por anulação de provas, dando azo até a pedidos de indemnizações chorudas.

É preocupante a cultura da inevitabilidade, instalada em relação à História. As políticas neo-liberais que todas as crises provocaram, provando o seu clamoroso fracasso, devem ser repetidas por inevitáveis, provavelmente porque quem as paga são os trabalhadores e não os provocadores que à “pala” mais ricos ficam.

É preocupante a propagação generalizada da cultura crápula de que os meios não interessam, o que importa é trepar à custa do ou de quem for. É mesmo sinal de inteligência aguda. A honestidade, a lisura de processos, a solidariedade, a amizade são coisas de “Totós”. São coisas de imbecis.

Tom Jobim cantou: “o amor é eterno enquanto dura”. Tudo é eterno enquanto dura, portanto é tempo de nos indignarmos e acabar com o inevitável.

José Neves, 22-11-09

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