Assistindo à dilaceração da curiosidade do saber
e à “amputação” do prazer de fazer


Começando este desabafo / reflexão de um modo generalizado, eu enquanto docente da disciplina de Educação Visual e Tecnológica (EVT), a leccionar há já quinze anos, com formação relevante na área da Pedagogia, Mestre Psicóloga Pedagoga e Supervisora Pedagógica de Formação de Formadores de Professores de Educação Visual e Tecnológica, de repente senti-me perplexa e mesmo incomodada, pois não consigo ter discernimento e uma interpretação lúcida e coerente que assimile a existência de uma nova “proposta” no âmbito da educação e ensino. Basicamente propõe-se que para leccionar a disciplina de EVT deixem de ser dois professores, par pedagógico, e que passe a ser somente um professor!

Fazendo um enquadramento temporal da educação e das disciplinas ditas artísticas, parece-me que toda a evolução relacional e pedagógica, de que estas disciplinas fazem parte, é indispensável em educação, da consolidação dos conhecimentos de diversas disciplinas, do saber e do saber fazer do ser humano enquanto racional e produtor activo está a diluir-se sem qualquer base educacional plausível e acima de tudo compreensível e fundamentada.

O que pretendemos nós do futuro da humanidade? Que os nossos filhos, netos, bisnetos… ou… pura e simplesmente alunos, não tenham mobilidade física e destreza manual de modo a coordenarem o saber com o saber fazer, entre outros exemplos: pregar, serrar, montar, colar, recuperar equipamentos, realizar jogos, entre outras actividades? Vamos voltar as discriminar as crianças ditas “inteligentes” em relação às restantes, privando as primeiras de adquirirem competências específicas desta área e direccionando-as para disciplinas ironicamente ditas “cognitivas”, chegando mesmo a poder ocasionar um sentimento de perda, de vazio e de uma necessidade insaciada de aprender. (Bell, 2004).

Após uma análise sucinta e uma reflexão, com base no dia-a-dia, enquanto profissional activa, e nas respostas que encontrei na vasta, mas não acabada, formação que fiz, concluo que a disciplina de EVT é leccionada em conjunto, o que nem sempre simplifica, mas conscientemente afirmo que dois têm mais experiência que um só, ou seja: a qualidade e a diversidade de ensino beneficiam-se e enriquecem-se com o trabalho desenvolvido por um par pedagógico.

Focalizando o programa curricular da disciplina, consigo afirmar, sem relutância, que ela é um elo de consolidação de quase todas as disciplinas curriculares, ou seja:

– Língua Portuguesa – Para além da comunicação oral e escrita comum e específica (termos técnicos e nomes próprios), EVT coopera com grande ênfase com a comunicação visual, pois cada vez mais temos a imagem a comunicar por si só, quer na transmissão de conhecimentos, quer mesmo dentro de toda a engrenagem de marketing que envolve a nossa sociedade, cada vez mais consumista;

– Inglês – Principalmente ao nível das novas tecnologias existem diversos, e cada vez mais, termos específicos em inglês, sendo pertinente e fundamentada a coordenação destas duas disciplinas;

– História e Geografia de Portugal – Toda a tecnologia evoluiu desde o aparecimento da roda até às mais sofisticadas descobertas, a par com isto temos a descoberta do papel e toda a evolução de materiais de desgaste e instrumentos de trabalho ao longo do tempo e da história (Pinturas pré-históricas nas grutas; a evolução do design desde a primeira bicicleta até à mais recente e quais são as motivações para essas alterações, entre muitas outras);

– Matemática – Esta é a disciplina em que EVT surge como uma mais valia para a consolidação de competências, pois ambas tratam de conteúdos tais como Medida / Quantidade / Espaço / Geometria, entre outros, sendo o conceito mais complexo e difícil de assimilar o da Abstracção, mas que na prática, nas aulas de EVT pode ser equacionado e ultrapassado positivamente;

– Ciências da Natureza – O estudo científico do conteúdo Cor/Luz é tratado cientificamente e focado em EVT ao nível teórico e transposto para a prática, sendo a cor pigmento presenciado e experimentado pelos alunos no contexto de sala de aula; do mesmo modo aborda-se o estudo do corpo humano em ciências sobre os seus órgãos e funções, em EVT as proporções e equilíbrios (Simetria, Assimetria, entre outros) sendo uma complemento da outra;

A disciplina de EVT participa e coopera com todas as disciplinas, estando o conteúdo segurança e higiene sempre presente, quer na organização do material, quer na postura física a ter em diferentes actividades e quer mesmo ao nível de higiene e trabalho. Esta disciplina também é uma mais-valia ao nível da motricidade fina, pois facilmente conseguimos detectar alunos com dificuldades neste campo.

O espaço físico da sala de aula de EVT normalmente é diferente, assim como o modo como estão dispostos os lugares e a dinâmica da aula, sendo muitas vezes um espaço para libertação de tensões, de expressão de emoções e sentimentos, deste modo, também mais facilmente os professores de EVT conseguem sinalizar crianças/alunos com problemas a outros níveis, tais como: emocionais, relacionais, cooperativos, familiares, socioeconómicos, infelizmente entre outros.

Ainda gostaria de deixar algumas questões, que denomino como “curtas e grossas”:

– Sendo só um professor, o ensino da disciplina será basicamente teórico, pois só um professor dificilmente conseguirá efectuar um ensino mais individualizado para poder ensinar técnicas específicas que poderão acarretar algum risco, mas que são importantes para o dia-a-dia enquanto ser activo (cortar, martelar, moldar, cozer, serrar, montar…)… ou subdividimos a turma e damos um só conteúdo programático por Período lectivo?

– Sendo um só professor, os alunos com Necessidades Educativas Especiais, que até aqui frequentam as disciplinas ditas de expressão, deixam de ir a EVT e serão necessários mais professores do Ensino Especial? Ou damos aulas só a eles para evitar riscos maiores de destruição de material e até danos físicos dos presentes?

– Como é que podemos continuar a motivar as crianças, valorizando a sua autonomia, auto-estima, autoconfiança e estimulando o seu empenho, mostrando sempre que possível o seu trabalho a toda a comunidade escolar e circundante?

– Como vamos querer designers, arquitectos, carpinteiros, electricistas, mecânicos e até mesmo cursos profissionais de vertente prática, se se pretende atrofiar a sua aprendizagem logo nos primeiros anos de aprendizagem?

– Parece-me que estamos a aferir crianças como armazéns de competências, mas será que estamos a dar hipóteses de elas aprenderem a interpretar problemas, a conseguirem esquematizar soluções e a concretizá-las (Método de Resolução de Problemas)? Ou será que só vão ter a capacidade de detectar o problema e pura e simplesmente destruí-lo e comprar outro?

– Nas épocas mais marcantes do ano lectivo (Natal, Carnaval, Páscoa, Dia da Mãe…), se for um só professor a leccionar EVT, o que é que os alunos agora vão expor e ou desfilar? Como não se pode individualizar tanto o ensino das técnicas, os trabalhos serão mais simples e menos rigorosos, reduzindo muito o grau de exigência já transposto para o currículo de EVT. Será isto que se pretende?

Antigamente diziam que o que diferenciava o homem do animal era a inteligência, recentemente ouvi, num workshop, que o que diferencia o homem do animal não é a inteligência, pois mais ou menos os animais também a têm. A grande diferença está na capacidade de o homem criar e o animal não (Bell, 2004). Estarão a querer limitar essa criatividade, criando obstáculos logo nos primeiros anos de aprendizagem que são os mais férteis em assimilação e maturação de conhecimentos básicos.

Toda esta problemática me deixa evidentes perturbações enquanto professora e essencialmente enquanto mãe e mulher que acredita no futuro. Será que estamos a assistir à asfixia lenta e dolorosa da arte em Portugal, assistindo à dilaceração da curiosidade do saber e à “amputação” do prazer de fazer?

Coimbra, 12 de Janeiro de 2011
Carla Frias

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