As notícias que ultimamente têm dado conta do propósito por parte do ME de passar o Desporto Escolar (D.E) para a componente não lectiva dos professores, não são de espantar mas no mínimo são preocupantes. Não são de espantar pois inserem-se no estúpido vendaval que visa destruir, em nome da crise, o sistema educativo e fundamentalmente a escola pública, mandando para o desemprego milhares de professores.

Efectivamente começaram, no âmbito do orçamento de estado, pelas áreas curriculares não disciplinares (Área de Projecto e Estudo Acompanhado), por desfazer os pares pedagógicos de Educação Visual e Tecnológica, atacar a direcção de turma e agora o D.E.. Esta é a morte anunciada, mais ou menos lenta conforme os casos, da actividade que, apesar de algumas vicissitudes, se ia realizando, envolvendo a nível nacional muitos milhares de alunos, alguns dos quais só nela tinham oportunidade de realização desportiva.

Por cada horário de professor poupado desaparece, pelo menos um grupo-equipa e não serão tão poucos como isso; já há cálculos que apontam para dois mil e tal horários que, multiplicados por quinze (número mínimo de alunos exigido por cada núcleo), dá para aferir a verdadeira extensão do problema: são milhares de alunos.

Os últimos anos já se iam caracterizando por cortes no número de concentrações desportivas para poupar nas deslocações e na alimentação, o que levava a que alunos que treinavam o ano inteiro realizassem duas ou três competições. Agora, esta medida ultrapassa tudo o que se possa imaginar como razoável. Mas, como vergonha é coisa que não conhecem, hão-de vir fazer grandes cerimónias de abertura e de encerramento, glorificando práticas e feitos desportivos como grandes mentores e obreiros do desenvolvimento desportivo, com direito a hino e bandeira deste país cada vez mais, se não só, propriedade de uns tais mercados.

As medidas que este governo está a preparar são muito mais penalizantes para toda a classe docente e destruidoras da escola pública, da qualidade de ensino e da oferta variada de oportunidades educativas, do que no tempo da famigerada Maria de Lurdes Rodrigues que levou muitos milhares de professores para as ruas deste país, conseguindo assim pelo menos salvar o princípio da carreira única deitando abaixo aquela tonta divisão entre professores e professores titulares.

Tudo isto perante a inexistência de ministro ou ministra da educação. Sim porque depois dos iniciais sorrisos a torto e a direito, só aparece para fazer uns discursos ridículos de tão disparatados que são. Quem manda na educação é o primeiro ministro e o das finanças, se esta senhora tivesse um pingo de vergonha já se teria retirado desta para as suas aventuras.  

O que cada vez mais espanta é a lamentável apatia com que se observa a passagem desta caravana de inevitabilidades como desgraça ou praga rogada parecendo que nada se pode fazer para a parar.

É tempo de voltar a mostrar a indignação gritando nas ruas antes que o inferno nos caia na cabeça.

Janeiro de 2011
José Neves

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